Grafite Eletrônico
Mídia: Revista Mais Arquitetura


Grafite Eletrônico

Cada vez mais projetos de arquitetura serão desenvolvidos diretamente no computador. O CAD deixou de ser uma simples prancheta eletrônica de passar desenhos a limpo para se tornar uma poderosa ferramenta de concepção e detalhamento executivo de projetos.



Para a grande maioria dos profissionais e escritórios de arquitetura e engenharia civil brasileiros, o uso de softwares de CAD no desenvolvimento de projetos já é, há algum tempo, uma realidade. Atualmente, pelo menos 90% do setor, segundo estimativas dos fabricantes, são usuários de algum programa desta família.

O que muitos ainda não sabem é que o segmento vem acompanhado, de alguns anos pra cá, uma revolução silenciosa. O setor, que envolve fabricantes e escolas de software, até ?cadistas?e profissionais de arquitetura e engenharia, vive hoje o que podemos chamar de 'terceira onda'.

A primeira fase foi a do aparecimento das ferramentas generalistas, que apenas reproduzem no computador os procedimentos da prancheta, seja com o fim de se obter um desenho de arquitetura, engenharia civil, mecânica ou outro qualquer. Em seguida, os fabricantes e empresas do ramo desenvolveram aplicativos específicos para cada área, que, rodando no ambiente CAD, disponibilizavam recursos e comandos para execução mais rápida das rotinas, oferecendo assim um enorme ganho de produtividade na realização dos desenhos.

Recentemente, surgiu uma terceira geração: a dos softwares desenvolvidos para aplicação específica em arquitetura. Na verdade, estes programas chegaram ao mercado nos últimos anos, mas só agora começam a ganhar força e a conquistar um número maior de adeptos.


TECNOLOGIA

Os fabricantes acreditam que o maior salto tecnológico desta nova geração do softwares está no fato deles oferecerem aos arquitetos e engenheiros recursos inteligentes de desenho e simulação de edificações e ambientes em 3 dimensões, o que torna possível o desenvolvimento dos projetos diretamente no computador. David de Oliveira, diretor da Cad Technology, empresa que comercializa o software Vector Works no Brasil, explica: 'Antes, os desenhos eram feitos em 2D e, eventualmente, depois passados para 3D. Com as novas tecnologias, ao fazer um 2D, automaticamente o projetista está gerando um 3D. Outra diferença é que antes os desenhos eram feitos com base em objetos geométricos como linhas, arcos e círculos, ou seja, para desenhar uma parede era preciso fazer duas linhas paralelas. Hoje em dia os desenhos são baseados em objetos arquitetônicos parametrizados, como portas, janelas e escadas', afirma David. 'Além disso, os programas mais modernos são muito mais intuitivos e não exigem grande esforço para o aprendizado', completa ele. Segundo Priscila Castro, arquiteta e direta executiva da Graphisoft, empresa que comercializa no país o software ArchiCAD, na prática esta tecnologia permite aos profissionais rapidamente realizem inúmeros estudos volumétricos e espaciais para análise das interferências de cada elemento do projeto, evitando erros graves que, se descobertos na etapa de execução, poderiam acarretar grandes prejuízos. 'Em poucos minutos é possível fazer alterações e ensaios que levariam dias ou horas para serem feitos à mão ou em programas mais antigos', destaca Priscila.

Os projetistas que já adotaram programas desta nova geração se dizem satisfeitos e afirmam ter ganho muito em produtividade. 'Antes, nós fazíamos o projeto no papel e passávamos a limpo no computador em 2D.

Agora fazemos só um croqui no papel e o projeto é feito diretamente em 3D, onde ganha forma e detalhes', afirma o arquiteto Artur Lê, coordenador de projetos do escritório Anastassiadis Arquitetos. Alguns ( poucos ) escritórios já iniciam o processo de criação no computador. É o caso, pôr exemplo, do arquiteto Marcos Acayaba: 'Cem pôr cento do que nós desenvolvemos hoje no nosso escritório é feito no computador. Primeiro, reproduzimos o terreno e o entorno com as edificações vizinhas mais significativas; em seguida, fazemos ensaios de isolação de sombra.Em função destas informações, realizamos um estudo de volume e implantação, após visitar- mos o terreno, é claro. Na seqüência fazemos um croqui e vamos evoluindo a idéia até ele estar mais elaborado, quando, então, o imprimimos'.

A concorrência e as exigências de mercado também têm levado os projetistas a investir na tecnologia como forma de manter a competitividade: 'As coisas mudaram. A apresentação dos projetos em perspectiva não é mais um diferencial do projetista, mas sim uma necessidade indispensável. Hoje, são os clientes que exigem maquete 3D e quem não levar isso em consideração, com certeza, vai perder mercado', alerta Priscila Castro, da Graphisoft. 'Os clientes querem ver o que estão comprando e para eles é muito mais fácil visualizar um projeto em 3D do que numa planta baixa', emenda Priscila. E quando mais detalhada for a apresentação, melhor. 'Imagens foto- realistas agregam valor e ajudam a impressionar os clientes, facilitando o trabalho do arquiteto de vender seus projetos', complementa Ricardo Yogui, gerente de desenvolvimento de negócios da Bentley Systems do Brasil, fabricante de diversos softwares e aplicativos, como, pôr exemplo, o Microstation e o Triforma


SUB- UTILIZAÇÃO

Mesmo com todas as vantagens que os novos programas oferecem aos usuários, alguns paradigmas ainda precisam ser quebrados para que os profissionais realmente extraiam tudo o que podem destas ferramentas. Grande parte dos projetistas ainda acha que o computador limita a criatividade, pois acredita que a lápis e o papel oferecem maior movimentação às mãos e, portanto, maior liberdade de 'riscar um croqui'. Contudo, esta visão parece de projeto utilizadas nas escolas e escritórios até hoje, do que aos elementos limitadores que os softwares apresentam de fato.

'Os profissionais que estão no mercado a mais tempo aprenderam a desenhar no papel co grafite e nanquim. Os mais novos aprenderam a desenhar no computador, mas foram ensaiados a fazê-lo em 2D, usando programas extremamente complexos e limitados em recursos de desenho. É um legado deixado pelas escolas, que ainda hoje ensinam a desenhar com técnicas de 30 anos atrás. Mais isto vai ter que mudar', adverte Luiz Sasada, diretor da Grapho, empresa fabricante do Arqui 3D. O arquiteto e professor Marcos Acayaba faz coro com Sasada: 'A formação dos alunos nas escolas é feita em softwares CAD de primeira geração, o que é péssimo'.

Com o conhecimento de quem acompanha a evolução do setor desde os primeiros momentos, a arquiteta Heloisa Dabus, titular do escritório Dabus Arquitetura defende que a criatividade e o talento estão na cabeça do profissional e não na ferramenta que ele usa. 'O software é só um recurso. Ao contrário do que os projetistas pensam, estes programas atuais permitem que o profissional tenha até mais tempo para criar. Se antes ele gastava 20% do tempo criando e 80% passando as idéias para o papel, agora ele pode gastar 80% em criação e 205 executando o trabalho braçal; e com menores possibilidades de erro', justifica Heloisa.

Além da de projetar em 3D, os programas da nova geração oferecem muitas outras ferramentas como a possibilidade de elaborar diversos tipos de documentação técnica, com plantas, cortes, vistas, projetos executivos, detalhamentos, relatórios quantitativos de materiais e muitos outros.

Entretanto, mesmo aqueles que se encontram em estágio avançado de conhecimento e aplicação de tecnologia ainda não deram contas das vantagens do seu uso mais abrangente.'Posso afirmar com segurança que a imensa maioria dos arquitetos e engenheiros não conhece os recursos que existem e acaba sub- utilizando estes softwares de nova geração. Eles deveriam se preocupar mais em utilizá- los, tirando assim melhor proveito do seu investimento', declara David, da Cad Technology, chamando a atenção dos profissionais para a questão do custo- benefício.'Muitos usuários ainda estão na primeira ou na segunda etapa e isso acontece pôr uma série de motivos: falta de tempo, treinamento, interesse, limitações de língua, etc', analisa Américo Correa Jr, engenheiro de aplicações da Autodesk do Brasil, que produz, entre outros programas, o AutoCAD e o ADT - Architectural Desktop.

Tudo indica que, assim como outras atividades científicas e artísticas, a exemplo da física e do cinema, estão aos poucos trocando as ferramentas tradicionais pelas de tecnologia mais moderna, a arquitetura ( que envolve ciência e arte ) deverá seguir o mesmo caminho. Da mesma forma que jornalistas, trocaram a escrita à mão e a máquina de datilografar pelos softwares como o usado para escrever este texto.


Revista Mais Arquitetura
Ano III - no. 33 - 2002